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Animais comunitários e Uma Só Saúde na responsabilidade coletiva

3 minutos

A presença de animais comunitários em espaços públicos tem suscitado debates frequentes na sociedade brasileira. Mais do que uma questão isolada de manejo animal, trata-se de um tema que envolve saúde pública, ética social, políticas públicas e convivência comunitária.

Animais comunitários são aqueles que vivem em determinado território e recebem cuidados coletivos de moradores ou frequentadores da região. Não se confundem com animais abandonados. Embora não tenham um responsável individual identificado, fazem parte de uma rede informal de cuidado e convivência. Em diferentes municípios brasileiros, inclusive, já existem normas que reconhecem essa condição e estabelecem diretrizes para sua proteção e manejo responsável.

A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 225, estabelece que é dever do poder público e da coletividade proteger a fauna e vedar práticas que submetam os animais à crueldade. Esse princípio é reforçado pela Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/1998), cuja redação foi atualizada pela Lei nº 14.064/2020, que aumentou as penas para maus-tratos contra cães e gatos. Essas normas expressam que a proteção animal é parte integrante do compromisso da sociedade com o meio ambiente e com a ética pública. Nesse contexto, o médico-veterinário possui papel fundamental.

De acordo com a Lei nº 5.517/1968, que regulamenta a profissão, e com o Código de Ética do Médico-Veterinário (Resolução CFMV nº 1138/2016), compete a esse profissional atuar na promoção da saúde e do bem-estar animal, e da saúde pública, contribuindo para a prevenção de agravos e para a orientação técnica da sociedade e do poder público.

A abordagem dos animais comunitários, portanto, não deve ser pautada por respostas simplistas ou por ações motivadas pelo medo ou pela intolerância. Trata-se de uma questão que exige estratégias integradas, baseadas em educação, responsabilidade coletiva e políticas públicas adequadas, incluindo programas de esterilização, vacinação, identificação e monitoramento sanitário.

Casos recentes de violência contra cães, amplamente repercutidos no País, geraram indignação social e reacenderam discussões sobre os limites éticos da convivência humano-animal. A reação da sociedade diante desses episódios revela um aspecto importante: há um crescente reconhecimento de que o respeito aos animais está diretamente relacionado ao grau de civilidade de uma comunidade.

Entretanto, o sentimento de indignação, por si só, não é suficiente para resolver o problema. É necessário transformar essa sensibilidade social em práticas educativas e em ações estruturadas. A educação para a convivência responsável com animais deve envolver crianças, jovens e adultos, promovendo valores como empatia, respeito e responsabilidade.

Sob a perspectiva de Uma Só Saúde, a relação entre humanos, animais e ambiente constitui um sistema interdependente. A gestão adequada da população animal, o respeito ao bem-estar dos animais e a promoção de ambientes urbanos saudáveis contribuem simultaneamente para a saúde pública, para a proteção ambiental e para a qualidade de vida das comunidades.

Animais comunitários, portanto, não devem ser compreendidos apenas como um desafio urbano ou sanitário. Eles também representam um convite à reflexão sobre a forma como construímos nossas relações sociais e nosso compromisso com o cuidado coletivo.

Respeitar os animais não é apenas um gesto de compaixão. É um indicador de maturidade social e de responsabilidade compartilhada na construção de uma sociedade mais ética, saudável e equilibrada.

O bem-estar de animais e pessoas está diretamente envolvido na Uma Só Saúde.

 

* Os artigos publicados são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões neles emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do CRMV-SP.

Vera Letticie de Azevedo Ruiz, Uma Só Saúde

Vera Letticie de Azevedo Ruiz

Presidente da Comissão Técnica Uma Só Saúde do CRMV-SP, médica-veterinária, mestre em Microbiologia e doutora em Epidemiologia Experimental e Aplicada às Zoonoses. Atualmente, é professora associada e coordenadora do curso de Medicina Veterinária da Fzea-USP.
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